Fintechs revolucionam o segmento financeiro no Brasil

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A tecnologia tem sido uma grande aliada no desenvolvimento dos serviços financeiros por mais de 60 anos. Os avanços tecnológicos nos permitiram criar soluções de segurança e novos canais de serviços como os ATMs e o internet banking, e essas inovações têm sido aprimoradas pelos gigantes da indústria sem que ocorressem grandes rupturas em sua dominância de mercado. O crescimento das fintechs, no entanto, é uma onda que veio mudar esse cenário.

Fintechs são as empresas que surgiram da interação entre serviços financeiros e tecnologia. Elas chegaram quebrando paradigmas e estão redesenhando a indústria. Com uma estratégia focada na experiência do consumidor, estão provocando uma mudança profunda nos setores de pagamentos, gestão financeira, criptomoedas, crédito, investimentos, seguros e financiamento.

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Nesse processo, elas estão não apenas desafiando as grandes empresas do setor, como também desbravando novos mercados e modelos de negócios. Por mais de 30 anos, a transferência de dinheiro entre instituições financeiras, por exemplo, tem sido através de uma Sociedade de Telecomunicações Financeiras Interbancárias Mundiais (SWIFT). Hoje, já é possível fazer uma transferência segura em Ripple em segundos.

No Brasil, encontraram o terreno ideal para o seu desenvolvimento e hoje o país possui o maior conglomerado de fintechs fora dos Estados Unidos. Os custos mais baixos e a oferta de serviços diferenciados vem atraindo não somente uma grande legião de desbancarizados e pessoas em busca de melhor atendimento, como também as novas gerações de consumidores acostumados a experiências digitais oferecidas por gigantes como Google, Facebook, Amazon e Apple, avessos aos modelos de serviço tradicionais.

Novas formas de pagamento

O foco na experiência do consumidor está facilitando o comércio eletrônico e faz surgir novas formas de pagamento, mais simples, intuitivas e rápidas.

O cartão de débito hoje é aceito nas grandes lojas e sites de divertimento que até há pouco tempo só aceitavam cartão de crédito, como Amazon, Submarino, Spotify e Netflix. Sites internacionais de entretenimento, como a Betway Casino, utilizam formas de pagamento que vão do boleto ao PayPal. Soluções P2P, que acontecem diretamente entre as partes (como transferências bancárias), são cada vez mais utilizadas — a Transferwise, por exemplo, transfere dinheiro internacionalmente no mesmo dia em que recebe a TED do cliente.

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Um novo método de pagamento que vem sendo estudado é a telefonia celular. A partir de um smartphone, a transferência de valores poderia ser disparada para uma lista de contatos. Os estudos ainda estão sendo feitos para definir a chave de identificação do destinatário e o número que seria utilizado — se o do telefone, e-mail ou cartão.

O fato é que os meios eletrônicos já respondem por 60% dos pagamentos realizados no Brasil, de acordo com a Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs). No final de 2017, esse número era de 32,6%.

As principais vantagens desses meios são a maior segurança nas transações e, consequentemente, a economia de custos administrativos e de fraudes. De acordo com Fernando Chacon, presidente da Abecs, os meios eletrônicos aumentam a eficiência do sistema, gerando segurança e rastreabilidade para as transações, e ajudam a reduzir as perdas com cheque sem fundo, roubos e falhas logísticas.

Sem banco, mas com smartphones

Enquanto 35% dos brasileiros adultos nunca teve conta em banco, sobretudo a população de renda mais baixa, o país detém o maior número de smartphones do planeta por habitante. Isso representa um imenso potencial para novas formas de prestação de serviços financeiros, que vêm sendo incentivadas pelo Banco Central do Brasil. Interessado em reduzir as taxas cobradas pelos bancos e expandir o acesso às contas, o BC agilizou a regulamentação para as fintechs e, entre elas, permitiu que as empresas de tecnologia financeira emprestassem dinheiro sem a intermediação dos bancos.

Com o incentivo do BC, o ritmo de crescimento das fintechs aumentou: de 2017 para 2018, o número de fintechs no Brasil cresceu 36%, de 244 para 332. Seguros e empréstimos são os nichos mais populares, representando 92% e 75% do número de iniciativas, respectivamente.

Um relatório do Goldman Sachs prevê que as fintechs brasileiras devem gerar receitas da ordem de 24 bilhões de dólares durante a próxima década. Isso ainda representa uma pequena fatia no segmento de crédito brasileiro de 1,5 trilhão de reais. Mas a importância dessas novas empresas reside mais no impacto sobre os grandes players tradicionais, que deverão reduzir seus preços. A taxa de juros média dos bancos é de 5,67% ao mês, enquanto nas fintechs é de 1,90% (valores médios em 2018).

Oportunidades para investidores nacionais e estrangeiros

Investidores brasileiros e estrangeiros estão de olho no potencial de crescimento das fintechs no Brasil. O aplicativo de planejamento financeiro GuiaBolso e o provedor de cartões de crédito Nubank (maior fintech do Brasil) conquistaram aportes significativos no final de 2017 e início de 2018, respectivamente. O Nubank está oferecendo contas bancárias digitais para pessoas além da sua base de clientes de cartões de crédito, e já tem 1,5 milhão de contas cadastradas em um projeto piloto. Também dobrou o número de clientes de 2016 a 2018, passando de 1,5 milhão para 3 milhões.

Várias outras empresas brasileiras estiveram no centro das atenções neste ano, lideradas pelo processador de pagamentos PagSeguro, que levantou 2,6 bilhões de dólares em uma IPO (do inglês Initial Public Offering, quando uma empresa abre seu capital para o mercado) listada em Nova York em janeiro — a segunda maior IPO do mundo no primeiro trimestre deste ano.

Em abril, o Banco Inter, um banco hipotecário de pequeno porte transformado em banco online, completou o primeiro IPO de um banco de varejo brasileiro em quase dez anos, com os investidores apostando na tecnologia para ajudar os bancos menores a ampliar sua base de clientes.

Espera-se que mais empresas de fintech venham a público nos próximos meses, com anúncios na bolsa de valores B3 em São Paulo. O segmento está crescendo, não é pouco, e teremos muita novidade pela frente.

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