Marcelo Freixo defende união da esquerda para evitar ditadura – Congresso em Foco

Por conta de seu enfrentamento com o crime organizado e as milícias, o deputado Marcelo Freixo (Psol-RJ) é acompanhado em todos os lugares por uma escolta de segurança. É um dos preços que ele paga pela opção que fez como motivação da sua vida pública. Ele, porém, considera que o caminho é se aprofundar ainda mais nesse e outros debates. Porque enxerga que o momento atual é de perigo. O deputado prega a necessidade de união das esquerdas para garantir que não haja riscos à democracia. Para ele, como aconteceu na ditadura, há um inimigo comum a ser enfrentado, que exige que divisões menores sejam deixadas de lado.

A entrevista exclusiva foi concedida por Freixo em entrevista para a nova edição da Revista Congresso em Foco, já disponível para compra (compre aqui), antes das declarações polêmicas de Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) sobre a edição de um novo AI-5.

Veja a seguir a entrevista, com trechos também reproduzidos em vídeo:

O  senhor fez um debate recente com a deputada estadual Janaína Paschoal, que viralizou e foi muito comentado. Qual a importância que o senhor reputa a esse debate nesse momento de radicalização?

O que me estranhou não foi ter feito um debate com uma pessoa que pensa diferente. Mas muita gente ter criticado essa disposição para debater. Me parece óbvio que eu consiga sentar com uma pessoa que pensa diferente e conversar. Janaína Paschoal é uma deputada estadual. Aliás, muito bem votada. Ela tem legitimidade. Eu não concordo com muita coisa que ela pensa. Quase tudo. Mas eu preciso ser capaz de conversar com ela, de dialogar.  Eu tenho um respeito muito profundo pela democracia. E respeito pela democracia não pode ser a reafirmação apenas do que eu penso.

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Alguns setores que apoiaram Bolsonaro, talvez a própria deputada Janaína, o MBL, estão fazendo mea-culpa?

Nós estamos em campos políticos completamente divergentes. Mas se o MBL está disposto a fazer a autocrítica e entender que errou, eu não vou dizer não. Eu tive um episódio com o MBL. O MBL fez uma postagem comigo que era mentirosa. Dizia que eu estava recebendo auxílio moradia e eu morando num apartamento funcional. Eu liguei para o [deputado] Kim [Kataguiri, do DEM de São Paulo, um dos dirigentes do MBL]. Na hora, ele ligou e eles fizeram uma errata. E eu comecei a responder nas redes sociais com a errata do MBL. Mas aconteceu algo muito curioso. Que é um pouco do momento que a gente está vivendo. Mesmo com o MBL dizendo que não era verdade, continuaram me atacando. Alguns diziam: “Ok, não foi verdade, mas podia ser”. A gente está inaugurando um tempo muito perigoso, meio areia movediça. A verdade que podia ser é o que você quer que seja verdade.

E a esquerda também não teria que fazer seu mea- culpa? Também não semeia o ódio quando diz que todos os que votaram no Bolsonaro e discordam do seu ideário são fascistas?

Isso é errado. Eu acho que o Bolsonaro é fascista. Aliás, eu tenho cada dia menos dúvida.  Agora, quem votou no Bolsonaro não é isso. Tem um setor que é isso. Mas tem uma massa de pessoas que votou no Bolsonaro por um processo de crise da democracia brasileira. É óbvio que o Brasil não tem 54 milhões de fascistas.

E dentro dos setores da própria esquerda? Não há também divisão e ódio? 

A gente não está vivendo um momento normal. A gente está vivendo um momento de fechamento. A gente não vive um período das relações institucionais, democráticas, garantidas. Se a esquerda, se o campo progressista, não tiver a capacidade de entender este momento, que a gente precisa fazer um debate programático, um debate de frente ampla, de luta contra a incivilidade do governo Bolsonaro, de recuperar as instituições, de recuperar a boa política, para que o povo se sinta representado, não tem saída. Precisamos fazer isso juntos. Eu não quero esperar chegar novamente  numa ditadura para termos um inimigo comum. Nós já temos um inimigo comum.

A tentativa de resolução dos problemas de segurança no Rio com as Unidades de Polícia Pacificadora (UPP), qual foi o grande erro cometido? 

Eu sempre fui um defensor do policiamento comunitário, da polícia de  proximidade. Daquela polícia que protege o cidadão. Mas para isso você tem que ter uma formação policial que é diferente da lógica da guerra. No Rio de Janeiro,  você tem 17% da população vivendo num cartão postal. Você passa do Túnel Rebouças você tem a sensação de que entrou num túnel do tempo. Você vai para uma Zona Oeste e ela é dominada por milícia, tráfico de drogas, grupos armados, ausência de Estado, onde mora 80% da população do Rio. E as UPPs ficaram fora disso. Se concentraram na Zona Sul. Na Zona Sul, 100% das favelas tinham ocupação da UPP. Mas nenhuma da Baixada Fluminense e de lugares mais violentos tinha UPP. Então a UPP não era um projeto de segurança pública. A UPP era um projeto de cidade. Correspondia a um modelo de investimento em cidade que mantinha essa desigualdade. E que não trazia uma nova polícia. As favelas continuavam sem saneamento, sem creches, sem escola, sem saúde, mas com a polícia lá dentro. Isso não é polícia de proximidade. Isso é polícia de controle. Isso tem prazo de validade.

Até onde o senhor acha que a família Bolsonaro está realmente envolvida com as milícias?

Olha, eu tenho muita prudência. Se eu não tivesse prudência, não estava vivo. Eu não falo o que eu não sei. Mas eu posso dizer que Bolsonaro é um defensor público das milícias. Ele tinha como figura da sua confiança, que articulava coisas entre todos os seus filhos, nos seus gabinetes, o (Fabrício) Queiroz. Sabidamente um cara envolvido com milícias. O Queiroz tem um histórico de relacionamento com matadores, inclusive com o matador da Marielle. Que era vizinho do Bolsonaro. A mulher e a mãe de um dos matadores mais conhecidos do Rio de Janeiro trabalhavam no gabinete do deputado Flávio Bolsonaro, colocados lá pelo Queiroz. Isso significa dizer que o Bolsonaro é um miliciano? Que Bolsonaro é dono de milícia? Não. Mas que ele tem que ser investigado. Que sua família tem que ser investigada.

A morte da menina Ághata evidenciou os problemas que pode haver na aprovação do excludente de ilicitude? 

O excludente de ilicitude é a coisa mais grave de todo o debate sobre o pacote anticrime. O nome já diz: você está excluindo uma ilicitude. Você está dizendo que pode matar alguém. Qualquer pessoa, policial e não policial. Porque o texto coloca o termo agente. Ele não coloca agente público. Ele coloca agente. Então, serve para polícia e serve para o civil. Se você matar alguém em situações de medo, forte emoção ou ameaça, isso pode servir como elemento de legítima defesa para o juiz pode anular a sentença.

Existe algum assassinato que aconteça sem grande emoção? 

Exatamente. A conclusão a que a gente chega é que só vai responder por homicídio quem matar rindo. Só que eu acho que entra uma reflexão maior. Esse é um governo que aposta no armamento. Esse é um governo que aposta na liberação das armas e esse é um governo que tem que apostar na possibilidade de as pessoas matarem, porque senão, não faz sentido.

Por outro lado, deputado, as pesquisas mostram que a segurança pública é considerado o maior problema do país. Qual seria o caminho para se enfrentar essa situação? 

É fundamental a reformulação completa da polícia. Você não pode ter um modelo de polícia tão atrasado, tão injusto para a própria polícia e  tão ineficaz. A gente tem uma população carcerária que está explodindo, que está crescendo e a gente só consegue resolver quatro por cento dos homicídios. Então, isso significa que a gente prende muito e prende mal. A gente tem uma polícia hoje que tem o maior índice de suicídio – o maior número de policiais mortos no Rio de Janeiro é por suicídio, mais do que em confronto. É preciso trabalhar o modelo de polícia, é  preciso reformular, é preciso ter um ciclo completo, com formação única, ter um investimento de carreira na polícia, para que a gente possa profissionalizar a polícia, para que a policia possa ser um instrumento de Estado, um instrumento de Justiça, de segurança para todos. A gente tem que trabalhar mais a capacidade dos municípios de agirem sobre a segurança pública. A gente tem que investir em inteligência. Tem de enfrentar a milícia.  Tem que ir no coração econômico. Tem que ter investimento de inteligência financeira sobre o crime. Tem que perseguir o dinheiro do crime.

O senhor será novamente candidato a prefeito do Rio? Nesse caso, qual será sua principal bandeira? 

Eu cheguei ao segundo turno tendo oito segundos de televisão. Eu brincava que era campanha Usain Bolt. Eu tinha o tempo que ele usa para correr cem metros. E chegamos ao segundo turno. No segundo turno, a gente teve 42%.  As pesquisas hoje apontam que eu estou em primeiro lugar. Então, é claro que eu tenho uma responsabilidade muito grande. Eu tenho me esforçado muito para criar uma grande frente ampla de enfrentamento à barbárie e à incivilidade que está colocada hoje.

O tempo passa e não se esclarece quem mandou matar a vereadora Marielle… 

Esclarecer o caso da Mariele é muito decisivo para o país. É um caso de violência política. Contra uma mulher. Nós já sabemos quem atirou nela. Foi um dos assassinos mais caros, mais sofisticados do Rio de Janeiro. Ele não matou por ódio. Ele nunca matou por ódio. Ele é um assassino profissional contratado. E é caro. Quem mandou matar Marielle é uma  pergunta republicana. Porque há um grupo político que tem como forma de fazer política no Rio de Janeiro, em pleno século 21, a possibilidade de matar alguém. Não pode haver democracia num lugar onde um grupo político tem como forma de fazer política a morte de alguém.

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