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Pesquisa do CNJ revela subnotificação de pessoas em situação de rua egressas do sistema prisional

 A dificuldade de identificar pessoas em situação de rua que já passaram pelo sistema prisional é uma das principais questões apontadas na pesquisa “População em situação de rua egressa do sistema prisional”, apresentada pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), nesta quinta-feira (27/8), durante o Seminário de Pesquisas Empíricas aplicadas a Políticas Judiciárias. O estudo mostra que os registros oficiais estão muito abaixo da realidade do Brasil e os pesquisadores apontam a necessidade de melhorar a identificação dessas pessoas e a articulação das políticas públicas destinadas a elas. 

Realizada em parceria com a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), como parte da 7ª edição da Série Justiça Pesquisa, o estudo analisou informações dos sistemas utilizados pelo Judiciário e ouviu pessoas que passaram pelo sistema prisional, profissionais que atuam no atendimento dessa população e integrantes do sistema de Justiça. O trabalho de campo foi realizado em Brasília (DF), Boa Vista (RR), Cuiabá (MT), Porto Alegre (RS), Salvador (BA) e São Paulo (SP). 

Nos cinco anos considerados pela pesquisa, 1.107.534 pessoas passaram pelo sistema prisional brasileiro. Desse total, apenas 1.168 (0,11%) foram identificadas nos registros como estando em situação de rua. Entre as 123.970 pessoas egressas analisadas, somente 211 (0,17%) tinham registro de situação de rua. A pesquisa alerta que esses números não representam a quantidade real de pessoas egressas do sistema prisional que estão em situação de rua, mas revelam a dificuldade de identificá-las nos registros oficiais. 

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Essa dificuldade aparece também na análise dos processos. Em uma busca no Sistema Eletrônico de Execução Unificado (SEEU), foram encontrados, inicialmente, apenas 32 processos com identificação explícita de que a pessoa estava em situação de rua. Em uma amostra de 3.321 mandados de prisão, somente 11 traziam a expressão “morador de rua”, enquanto 454 apresentavam o endereço como “não informado”. Para os pesquisadores, a falta dessas informações dificulta conhecer o tamanho do problema e planejar ações para atender essa população. 

 Para mostrar a dimensão dessa diferença, a pesquisa fez uma simulação com base em um levantamento realizado em São Paulo, em 2021. Naquele estudo, 27,8% das pessoas entrevistadas em situação de rua disseram já ter passado pelo sistema prisional. Se essa proporção fosse aplicada aos dados nacionais de população em situação de rua, o número chegaria a 96.061 pessoas egressas do sistema prisional na condição de rua. O número é muito superior aos 211 registros encontrados no SEEU. Os pesquisadores ressaltam que essa é apenas uma simulação e não uma contagem da população existente no país. 

Perfil 

As entrevistas também ajudaram a traçar um perfil das pessoas ouvidas. No quesito gênero, a maioria é de homens cis; quanto à raça, a maioria é negra. A faixa etária de 40 a 50 anos concentrou o maior número de entrevistados. A renda média mensal ficou em torno de R$ 600,00, e o Bolsa Família apareceu como uma das principais fontes de sustento. 

Entre os registros analisados sobre os crimes que levaram essas pessoas ao sistema prisional, furto e roubo foram os mais frequentes, representando, respectivamente, 22,87% e 23,77% dos casos. A pesquisa também identificou as dificuldades que continuam depois da saída da prisão, como falta de documentos, problemas relacionados ao pagamento de multas, uso de tornozeleira eletrônica e ausência de orientação sobre a situação judicial. 

Os relatos mostram ainda que muitas pessoas deixam a prisão sem apoio suficiente para reconstruir a vida. A falta de moradia, emprego e renda se soma, em muitos casos, ao rompimento dos vínculos familiares e à dificuldade de acessar serviços de saúde e assistência social. A pesquisa aponta que, embora existam iniciativas importantes, ainda há dificuldades para garantir um acompanhamento contínuo e articulado. 

A defensora pública do Estado de São Paulo e integrante do Comitê PopRuaJud Fernanda Penteado Balera chamou atenção para a diferença de tratamento dessas pessoal quando se fala em controle penal. “A gente está falando de uma população que, ao mesmo tempo, em termos de dados, é invisível para o sistema, mas a gente sabe que, na verdade, ela é extremamente visível para o controle penal”, afirmou. 

Representante do Movimento Nacional da População de Rua (MNPR) no Comitê Nacional PopRuaJud, Vanilson Torres destacou o ciclo de ida e volta entre a rua e o sistema prisional. “Pessoas são presas quando estavam em situação de rua. Durante a prisão, deixam de aparecer nas estatísticas da rua, mas não deixam de sofrer ausência de moradia e, ao serem libertadas, sem documentação, renda, trabalho, vínculos comunitários e uma solução habitacional, retornam à rua”, afirmou.  

Caminhos 

Diante desse cenário, o estudo recomenda melhorar a forma como os sistemas do Judiciário registram a situação de rua, integrar informações da Justiça com as das áreas de saúde, assistência social, moradia e trabalho e fortalecer o acompanhamento das pessoas quando deixam o sistema prisional. A pesquisa também defende uma atuação conjunta de Judiciário, Defensoria Pública, Ministério Público e rede de proteção social. 

O coordenador da pesquisa na PUC-SP, professor Jorge Broide, destacou que os dados revelam uma invisibilidade que dificulta a formulação de políticas públicas. “A ausência do dado não significa ausência de um fenômeno, mas uma invisibilidade institucional e uma subnotificação estrutural”, afirmou, ressaltando que a falta de dados impede que seja dimensionada a situação e planejar ações para essa população. 

O juiz auxiliar da Presidência do CNJ e coordenador do Departamento de Monitoramento e Fiscalização do Sistema Carcerário (DMF), Luís Geraldo Santana Lanfredi, destacou a importância de criar mecanismos de apoio às pessoas que deixam o sistema prisional. “Essa pesquisa nos dá justamente aquilo que hoje, no Pena Justa, precisamos para a criação dos protocolos de saída, para uma série de retaguarda do ponto de vista social para essas pessoas”, afirmou. 

Também participaram do lançamento a coordenadora-executiva da Política Judiciária de Atenção a Pessoas em Situação de Rua e suas interseccionalidades (PopRuaJud), Luciana Yuki Fugishita Sorrentino e os pesquisadores da PUC-SP Pedro Marinho, Lucinéia Rosa dos Santos e Celeste Melão. 

 Acesse o relatório 

 Assista ao lançamento da pesquisa  

Texto: Thays Rosário
Edição: Waleiska Fernandes
Agência CNJ de Notícias

 

 

Fonte Oficial: Portal CNJ

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