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Cultura, direitos e ancestralidade marcaram 6ª Jornada de Leitura no Cárcere 

A 6ª Jornada de Leitura no Cárcere terminou na última semana reunindo mais de 40 mil pessoas privadas de liberdade, em 402 unidades prisionais de todo o país, para falar sobre leitura, memória e identidade como formas de enfrentar desigualdades sociais que reverberam no sistema prisional. Histórias de quem viveu o cárcere dividiram espaço com reflexões sobre ancestralidade, bibliotecas, cinema e projetos de escrita. A transmissão ao vivo pelo Youtube do CNJ e canais parceiros reuniu quase 10 mil visualizações nos três dias de evento.
Na mesa “A construção de um novo mundo pela palavra”, a poeta, slammer e autora de “Quem saberia perder”, Gih Trajano, contou como a literatura marginal, apresentada em roda de leitura quando ainda estava na prisão, mostrou uma linguagem próxima da própria experiência. “Quando me sinto igual àquele que eu leio, eu tenho a esperança de que eu também posso ser”, afirmou. A leitura, sobretudo do Código de Processo Penal, trouxe ferramentas para redigir o próprio habeas corpus e reorganizar sua trajetória após a saída.
“O sistema é falho, esta é a verdade, muitos fingem não ver essa realidade
Por isso, agora, neste refrão, eu disparo a verdade que existe na prisão
Tanta repressão à nossa volta, tanta tortura, só causa revolta
Mas eu não vou, não vou desistir”

Religiosidades afro-indígenas e o direito de existir

O professor e babalawô Ivanir dos Santos, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, tratou do apagamento cultural e religioso que marca a história brasileira e se reflete nas prisões. “Não é possível falar de liberdade sem falar de ancestralidade”, afirmou. Ao tratar da liberdade religiosa como parte da dignidade humana, defendeu o reconhecimento das tradições afro-indígenas e a garantia de práticas religiosas diversas, com respeito a símbolos, rituais e espaços próprios nas unidades.
A discussão dialogou com diagnósticos do CNJ e da Senappen sobre a falta de assistência religiosa plural em grande parte dos estabelecimentos penais e com metas do Plano Pena Justa voltadas à proteção da liberdade religiosa no contexto prisional.

 Bibliotecas, clubes de leitura e escrita

O painel Bibliotecas que transformam: o mundo que a leitura inaugura explicou como experiências de bibliotecas prisionais pelo país podem criar espaços de circulação de ideias a partir de acervos organizados, mediação de leitura e clubes de leitura podem criar espaços de circulação de ideias. No painel Valorização da leitura e da escrita e sua democratização junto às pessoas privadas de liberdade foram apresentadas iniciativas de remição pela leitura e pela escrita.
Os relatos mostraram clubes de leitura, oficinas de texto e projetos de publicação de coletâneas produzidas por pessoas presas, articulando educação, acesso à cultura e garantia de direitos. As falas convergiram na importância de que a remição prevista na Resolução CNJ n. 391/2021 seja acompanhada de orientação pedagógica e reconhecimento da autoria das pessoas participantes.

Arte em múltiplas formas

No bate-papo Arte como expressão e identidade, o rapper, ator e escritor Sagat B, autor de “O bandido que virou artista”, tratou do papel da arte na reconstrução de trajetórias. Ele lembrou que o primeiro contato marcante com a literatura foi na cela com O alienista, de Machado de Assis. “Eu lia e começava a rir sozinho. Depois desse livro, fui pegando outros na biblioteca, um atrás do outro, e a cada dia fui me apaixonando mais pela leitura”, contou. Ao narrar seu percurso com música, teatro e escrita, relacionou violência, encarceramento e racismo e ressaltou a importância de políticas que apoiem a produção cultural de jovens negros e periféricos.
O audiovisual ocupou a tela das unidades com a exibição dos curtas Travessias e Entre Marés, seguida de conversa com suas diretoras e representantes do Ministério da Cultura sobre cinema, território e memória. Houve ainda exibição do documentário “Livros que libertam”, do Tribunal de Justiça de Alagoas (TJAL) e a apresentação da peça Pena Justa: o encontro da ADPF 347, encenada por pessoas privadas de liberdade na Paraíba.

Sobre a Jornada 

Realizada pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), pela Secretaria Nacional de Políticas Penais do Ministério da Justiça e Segurança Pública (Senappen/MJSP) e pelo Observatório do Livro e da Leitura, a Jornada de Leitura no Cárcere é um evento anual que, em 2025, chega à sexta edição, se consolidando como principal espaço nacional de mobilização cultural voltado à leitura no sistema prisional. A iniciativa integra as ações do programa Fazendo Justiça.
Texto: Renata Assumpção 
Edição: Débora Zampier 
Agência CNJ de Notícias

Fonte Oficial: Portal CNJ

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